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Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?


Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de
amor, ou simples ânsia?


Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração
expectante, e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor, um chão de
ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de
rapina.Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas
pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na
concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.


Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água
implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade


  • Amor É Fogo Que Arde Sem Se Ver

    Amor é fogo que arde sem se ver;
    É ferida que dói e não se sente;
    É um contentamento descontente;
    É dor que desatina sem doer;


    É um não querer mais que bem querer;
    É solitário andar por entre a gente;
    É nunca contentar-se de contente;
    É cuidar que se




  • Olhos Negros

    Por teus olhos negros, negros,
    Trago eu negro o coração,
    De tanto pedir-lhe amores...
    E eles a dizer que não.


    E mais não quero outros olhos,
    Negros, negros como são;
    Que os azuis dão muita esp'rança
    Mas fiar-me eu neles, não.


    Só negros, negros os






  • Amar!

    Eu quero amar, amar perdidamente!
    Amar só por amar: aqui... além...
    Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
    Amar! Amar! E não amar ninguém!


    Recordar? Esquecer? Indiferente!...
    Prender ou desprender? É mal? É bem?
    Quem disser que se pode amar




  • Senhora Partem Tam Tristres

    Senhora, partem tam tristes
    meus olhos por vós, meu bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.


    Tam tristes, tam saudosos,
    tam doentes da partida,
    tam cansados, tam chorosos,
    da morte mais desejosos
    cem mil vezes que da vida.
    Partem tam







  • Olha Marília, As Flautas Dos Pastores

    Olha, Marília, as flautas dos pastores
    Que bem que soam, como estão cadentes!
    Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
    Os Zéfiros brincar por entre flores?


    Vê como ali beijando-se os Amores
    Incitam nossos ósculos ardentes!
    Ei-las de planta em planta as




  • O Amor É Uma Companhia

    O amor é uma companhia.
    Já não sei andar só pelos caminhos,
    Porque já não posso andar só.
    Um pensamento visível faz-me andar mais

    depressa
    E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir

    vendo tudo.


    Mesmo a ausência dela é uma coisa que

    está



  • Memória

    Em meus momentos escuros
    Em que em mim não há ninguém,
    E tudo é névoas e muros
    Quanto a vida dá ou tem,
    Se, um instante, erguendo a fronte
    De onde em mim sou aterrado,
    Vejo o longínquo horizonte
    Cheio de sol posto ou nado


    Revivo, existo, conheço,
    E,







  • Este Inferno De Amar

     Este inferno de amar - como eu amo!
     Quem mo pôs aqui n'alma...quem foi?
    Esta chama que atenta e consome,
     Que é a vida - e que a vida destrói -
    Como é que se veio a atear,
    Quando - ai quando se há - de ela apagar?
    Eu não sei, não lembra:





  • O Amor, Quando Se Revela

    O amor, quando se revela,
    Não se sabe revelar.
    Sabe bem olhar p'ra ela,
    Mas não lhe sabe falar.

    Quem quer dizer o que sente 
    Não sabe o que há de dizer. 
    Fala: parece que mente 
    Cala: parece esquecer

    Ah, mas se ela adivinhasse, 
    Se










  • Delírio

    Nua, mas para o amor
    não cabe o pejo
    Na minha a sua boca
    eu comprimia.
    E, em frêmitos
    carnais, ela dizia
     - Mais abaixo, meu
    bem, quero o teu beijo!
    Na inconsciência
    bruta do meu desejo
    Fremente, a minha
    boca obedecia,
    E os seus seios,
    tão rígidos













  • Hino ao Amor

    De olhar fixo no pensamento, viajei ao imaginário
    Perdi-me no tempo, nas memórias…
    Percorri e atravessei a trilha das almas
    Ouvi sons de passos que não dei…
    Despertei com o estalar do fogo, fogo que só tu sabes atear
    O calor que me invade o corpo,





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